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Autora do livro que traça um paralelo entre o amor e a solidão, a psicanalista Ana Suy conta como a nossa vida é afetada pela busca de um amor, pela manutenção dos relacionamentos e pelo luto do término: “É sempre por amor que vivemos”. E isso tem tudo a ver com saúde!

Basta olhar ao redor: alguns estão vivendo relacionamentos felizes, tem quem esteja se queixando da dificuldade de encontrar uma parceria amorosa, alguém pode estar à beira de um término e tem ainda quem esteja vivendo a dor do fim. Desde a concepção, uma verdade é incontestável sobre a nossa condição humana: estamos sempre precisando de cuidado e fugindo da solidão.

“O amor de alguém nos funda a vida, é sempre por amor que vivemos”, justifica Ana Suy, psicanalista e autora do livro recém-lançado “A gente mira no amor e acerta na solidão” (ed. Paidós). Mas nem por isso nos livramos de estarmos só. Somos seres faltantes e é isso que faz a vida ter sentido. 

“Ao encontrar um amor, a gente não encontra a parte que nos faltava até então. A gente encontra a metade que fará falta a partir dali”, explica ela. 

Portanto, esqueça o imperativo do único grande amor. Em um mundo mentalmente colapsado, poder desdobrar essa noção em tantas possibilidades de relacionamentos, segundo ela, é uma das condições fundamentais para que a gente possa ter o que chamamos hoje de saúde. 

Mas até lá, há um longo caminho de autoconhecimento, paixões, trocas, ilusões e luto a ser percorrido. A gente foi pedir ajuda para traçar esse mapa. E com as palavras da própria autora, aqui vai o atalho: “Pegue as coisas que servirem para você e deixe cair as demais”. 

Holistix: O grande amor existe?
Ana Suy: Para ser amor, precisa ser grandioso. Mas o equívoco dessa noção que recai sobre muitas pessoas é a ideia de que a gente só tem um grande amor. Isso aprisiona, porque nos coloca à espera da chegada dessa figura única. E aí, quando aparece, nos acorrentamos. É o que leva muita gente a se ver presa em relacionamentos abusivos. O amor precisa ser grandioso para sustentar uma relação amorosa, mas não pode se limitar a essa grandiosidade.

H: Seu livro é dedicado às mulheres que “ao esperarem demais do amor, temem a solidão como sendo a perda do amor”. A solidão é algo a ser combatido?
AS: Assim como o amor é muito mal falado, a solidão também é, porque interpretamos como uma maldição, o atestado de que demos errado na vida. Essa condição da solidão é sempre colocada do ladinho do abandono. Só que ela pode ser uma posição ativa também. A gente precisa dela, inclusive, para estar numa relação. Ela é o ato de poder se afastar do outro e estar com a gente mesmo, fisicamente sozinhos, na mesma medida da necessidade de estar acompanhado. Quando a gente se mistura demais com o outro, a gente se perde da gente. 

H: Se o amor não nos livra da solidão, então, temos aí dois opostos que se atraem?
AS: Sim e isso é bem bonito de dizer. A solidão é que vai nos levar ao amor e é o amor que nos leva à solidão. Em última instância, no relacionamento amoroso, a gente não se encontra com a cara metade ou com a tampa da nossa panela. A gente se encontra com um certo desencontro, que faz com que a gente se encontre com a gente mesmo.

“Poder ficar sozinho é sinal de boa saúde mental. Winnicott desenvolve sua tese de que poder ficar só, na presença do outro, é o estágio mais sofisticado do psiquismo humano.

H: Quais são nossos maiores vilões na busca por esse tal de grande amor?
AS: O imperativo de que ele vai existir. Isso nos leva a exigir muito do outro e de nós mesmos. Muita gente procura por alguém como se estivesse procurando uma blusa para usar em uma determinada ocasião, onde já se tem a saia, a calça e o sapato. Se a gente vai buscando essa peça para completar o look, é muito fácil ficar exigente, porque precisamos desses critérios. Se a gente segue essa lógica procurando um par amoroso, encontramos decepção. O outro não corresponde àquilo que eu quero ou eu não correspondo àquilo que gostaria de corresponder: “Escolhi a calça errada, o sapato errado. Não era isso que eu queria. Devia ter feito, falado, agido diferente”. A experiência amorosa passa longe de um cálculo preciso, é sobre se encontrar com aquilo que a gente não estava esperando. E aí, a gente refaz nosso look a partir desse encontro inesperado. Nós fomos engolidos por essa onda que coloca tudo na lógica do consumidor: “Amar pessoas é como consumir pessoas”. E a gente acaba se colocando como um objeto a ser comprado pelo outro, então, precisamos nos vender bem. Estar num aplicativo de paquera é isso: você coloca seus “benefícios” e o que o outro ganha se ele te escolher. No amor, se trata muito mais de perder do que de ganhar. A Clarice Lispector escreve no “O Ovo e a Galinha”: “Amar é inclusive a desilusão do que se pensava que era amor”. 

Trata-se de uma fantasia amorosa bastante comum, a de que encontrar nosso grande amor nos livraria de nós mesmos.

H: A gente deveria, então, reduzir nossas exigências?
AS: Sim, mas com cuidado. Nós, enquanto mulheres contemporâneas, estamos reinventando a nossa relação com o amor. Então, acho que se trata, sim, de não entrar num grau de exigência, tentando fazer o outro caber naquilo que eu preciso, e também de já não precisar mais de um amor a qualquer custo. Precisamos descobrir o que é inegociável para cada uma de nós e o que não é. 

H: Tem uma frase muito marcante nesse sentido da psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello que é: “Na nossa cultura, os homens aprendem a amar muitas coisas e as mulheres aprendem a amar os homens”. Estamos nesse processo de desconstrução?
AS: Sim. A gente sai da perspectiva de poder amar só o par amoroso, um filho… Podemos amar outras coisas, de fato. Inclusive, os amores romântico, sexual, pelo filho também ficam mais ricos quando a gente pode amar outras coisas.

H: Há quem lamente que hoje está mais difícil encontrar um amor. Está mesmo?
AS: O problema está justamente em encontrar o amor. Em certa medida, a gente sempre ama sozinho, porque amar é uma tarefa do amante. Mas eu não consigo sustentar um amor na relação com o outro, se ele não me ama de volta. Então, nesse sentido, acho que vivemos um tempo pouco propício para o amor. Vivemos um tempo muito propício para a paixão, que dura tão pouco como os nossos objetos de consumo. 

Na paixão, idealizamos o outro, não a partir dele mesmo, mas a partir daquilo que gostaríamos que ele fosse.

H: Qual a diferença entre paixão e amor?
AS: A paixão é mais narcísica do que o amor. No apaixonamento, nós temos uma noção de que nos fundimos ao outro, a ponto de achar que nos conhecemos de outra vida. É um estado muito semelhante à loucura, dizia Freud, sem cair no campo da psicopatologia. A gente se apaixona por aquilo que inventamos que é o outro e também pelo nosso próprio apaixonamento. É avassalador e escrever a paixão no tempo me parece que é um pouco do que o amor tenta fazer. Isso não é sem perda, porque a gente encontra com solidões no meio do caminho. Mas se as coisas, em certo modo, andam bem, a gente não consegue se curar em absoluto da paixão. Por isso, o amor inclui um pouco da paixão e um pouco da solidão também. Amar é um constante trabalho que não se faz sozinho, com disposição para revisões – quem sou eu para o outro e quem é o outro para mim – e reinvenções. Sempre sem garantia. 

Paixão é gozo. Talvez pudéssemos dizer que a paixão é o amor em seu estado máximo, o orgasmo do amor.

H: Diante dessas implicações da paixão e do amor, o que seria viver essa relação de modo saudável?
AS: Poder ser você com liberdade diante do outro. Lembrando que liberdade é cheia de limites também: traumas, imposições sociais, crenças…Como coloca Freud: “A gente não tem como fugir da gente mesmo”. Nós nos conhecemos na relação com o outro. E aí vem a problemática contemporânea sobre a gente estar bem com a gente para, então, estar bem com o outro. Eu concordo em absoluto, mas não é simples, porque o nosso amor próprio é efeito do amor do outro. 

H: Poderia falar um pouquinho mais sobre essa imposição do amor próprio?
AS: Essa exigência de que precisamos nos amar é muito amiga da meritocracia: “Se você fizer direito, você consegue”. Pode até ser bem intencionado, mas essa exigência recai como o seu inverso. Se eu preciso me amar, mas acho que não me amo tanto, então, me amo menos ainda. Isso entra num circuito que leva o sujeito ao pior de si mesmo. Se eu me cuido, faço tudo certo, por que ninguém me quer? Como se a gente fosse um produto a ser consumido pelo outro. Precisamos sustentar que algo sempre vai faltar e isso não é um pesar, é justamente o que faz a vida ter sentido. 

H: E como a gente faz pra enxergar o outro na relação, considerando que vivemos tempos de culto ao ego?
AS: Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se trata um pouco de suportar perder parte da nossa importância. Tem muito a ver com poder rever a imagem que temos de nós nesse encontro com o outro, se deixando afetar e atravessar por ele, para além das nossas idealizações e exigências narcísicas. 

H: Você diz no livro que a gente “ama mal”, o que seria isso?
AS: Amar mal tem a ver com acharmos que o amor é uma coisa pronta. Como se fosse possível copiar o amor do casamento dos pais, dos tios, o amor da mãe pelos filhos. Segundo o psicanalista francês Jacques Lacan, “amar é dar o que não se tem”. Isso coloca o amor no campo da ação, como algo que se faz no presente, continuamente. E é por isso que temos dificuldade de aceitar que o amor termina, porque a gente sai do gerúndio. 

Talvez nada seja mais humano do que o medo de perder o outro, ou melhor, o medo de se perder perdendo o outro.

H: E por que queremos tanto ser amados? 
AS: Literalmente, viemos de um outro, completamente desamparados, precisando muito de cuidado. A noção de quem somos é construída na infância a partir desse lugar que o outro nos oferece: seu corpo, seu desejo, seu amor. Nossa chegada ao mundo tem essa premissa: somos seres radicalmente desamparados. Isso é grandioso e a gente não se livra nunca dessa perspectiva infantil. O amor nos infantiliza. Não por acaso, quando encontramos parcerias amorosas, nos deparamos com as nossas vulnerabilidades, fragilidades, com aquilo que é infantil em cada um de nós. Queremos descobrir quem somos para o outro. Essa questão nos introduz no mundo do amor. Segundo Lacan, a criança está sempre fazendo esse exercício de brincar de se perder para que o outro possa achá-la. E isso perdura. O pediatra e psicanalista inglês Winnicott tem uma fala sobre isso: “Esconder-se é um prazer, mas não ser encontrado é uma catástrofe”.  

Não queremos ser amados apenas pela presença, mas queremos ser amados especialmente pela nossa falta. (…) Nos satisfazemos por imaginar (ou saber) que podemos fazer falta.

H: É por isso que dói tanto se separar?
AS: A gente perde muita coisa quando termina um relacionamento. Perde quem era o outro pra gente. Descobre que aquela pessoa que a gente amava não existia. O amante é mesmo um inventor do amado. Não tem amor sem fantasia, embora o amor não se reduza a uma mera fantasia. Quando termina, a gente também perde quem a gente era para o outro nessa fantasia. E perde aquilo que a gente pensava que era amor. Isso dói. Tudo precisa ser revisto. Por isso, o luto é um trabalho de elaboração. Rever ponto a ponto da história, das pessoas ao entorno e do mundo para poder se reposicionar. 

Quando o outro se vai, a gente fica com a gente.

H: E qual o melhor jeito de lidar com o luto do término?
AS: Fazendo análise ou alguma psicoterapia. Pedir ajuda não significa que o outro vai resolver nosso problema, mas é uma posição humilde de se reconhecer como faltante. Vivemos um momento em que pedir ajuda é muito mal visto, porque precisamos ser independentes, autossuficientes. Falta humildade pra gente. Compartilhar nossas fragilidades com amigos, familiares, colegas do trabalho é o que faz os encontros amorosos acontecerem. Existem muitas modalidades amorosas disponíveis. Quando a gente perde uma forma de amor, vale lembrar que existem as outras.

Tendemos a pensar que, quando o amor acaba, encontramos a confirmação de que não houve amor. Assim, talvez relutemos mais do que o necessário para reconhecer o fim do amor, na tentativa de manter a ilusão de que amor não acaba.

H: É possível superar o luto?
AS: A vida inteira é um processo de luto, continuamente. É disso que a vida se trata. E quando há de fato uma perda de um relacionamento muito importante, isso se acentua de forma muito drástica. O luto acontece com altos e baixos. Dói mais, dói menos. Às vezes, achamos que já passou, mas não passou. O segredo está em poder sentir o luto e a tristeza. Mas não só. É poder também sentir alegria e viver as ambivalências da vida, transformar o que foi vivido em história. Talvez o luto não tenha fim enquanto houver vida. E o amor é irmão do luto. Não se trata desse grande ideal, mas daquilo que é possível.

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