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Não é novidade que nossa relação com o tempo está cada vez mais complexa. Agora, urge a necessidade de saber aproveitar ao máximo 2022 — com a promessa do pós-pandemia e um ano novinho pela frente. Mas o que significa “aproveitar”?

Quantas vezes você já ouviu (ou disse) que o dia tinha que ter muito mais do que 24h para conseguir dar conta de todas as obrigações diárias? “Estamos construindo uma relação insustentável com o tempo”, afirma a mestre e doutora em Memória Social Renée Maia, que se dedica há mais de sete anos a estudar essa sensação de falta de tempo. Múltiplas demandas, tecnologias inesgotáveis, excesso de estímulos, cansaço extremo… Afinal, como driblar essa realidade doentia? 

Segundo Renée, estamos mergulhados no que ela chama de “compressão da hesitação”. Tudo acontece no piloto automático e, com isso, desaprendemos a lidar com a espera. A hesitação, que seriam os segundos que antecedem uma resposta, está cada vez mais curta. E, como não temos tempo para pensar, estamos construindo cada vez menos memória sobre tudo o que nos acontece. Um exemplo disso é o quanto todos os dias parecem iguais dentro da rotina de home office — tudo é tão igual e fazemos nossas atividades de forma tão automática, que não criamos lembranças significativas.

E isso tudo é agravado pela velocidade. Cada vez mais, estamos inseridos em um contexto de transformações velozes, em que somos bombardeados por notícias, notificações e compromissos. Criamos uma percepção de aceleração do tempo — e estamos nos viciando nela. Um exemplo? Aceleramos até a reprodução de vídeos e áudios nos aplicativos de mensagens, porque o ritmo natural das coisas, agora, nos parece lento demais.

Por que queremos otimizar o tempo o tempo todo?

De acordo com Renée, nossa percepção do tempo é socialmente construída. Nós temos a sensação de que ele passa muito depressa, mas ele continua correndo no mesmo ritmo — o que nos faz percebê-lo dessa maneira, segundo ela, é o imediatismo da nossa sociedade imersa na tecnologia e mídias sociais. “Existem três fatores que são determinantes para a nossa percepção do tempo. São elas: as transformações, a nossa atenção e a memória”, comenta.

À medida que nos acostumamos a receber respostas aceleradas, convertemos isso no nosso “novo normal”. Aceleramos o que é possível porque “não há tempo a perder” e nos desacostumamos a esperar. “Um claro exemplo disso é a compulsão à ocupação que isso causa. Quando estamos na espera de uma consulta médica, por exemplo, não nos conforta fazer nada, permanecer quieto e simplesmente usar esse tempo para pensar. Quando sobra tempo, não sabemos o que fazer com ele. Aí, nos ocupamos com nossos celulares”, explica. 

Esta urgência de otimizar o tempo converte a vida em um objeto de gestão, segundo a pesquisadora. “Extrair o máximo de toda situação tem um apelo quantitativo, e não qualitativo. Quando queremos o máximo de coisas no menor tempo possível, nos comportamos como máquinas. Só tecnologias, robôs, softwares e computadores conseguem se atualizar e desenvolver uma versão melhor e garantir sempre uma boa performance. Nós, humanos, não somos máquinas. Não conseguimos acompanhar esse ritmo”.

Não é de hoje que nossa relação com o tempo vem sendo profundamente transformada. A Revolução Industrial foi um grande marco disso e o início das nossas mudanças enquanto sociedade, já que ali fomos apresentados a uma rotina de não-descanso. A máquina não espera, não tem limites. E, desde então, buscamos nos assemelhar a esse modelo de produção. 

De acordo com Renée, quando tentamos dar conta de tudo, tentamos ser mais robóticos. Com isso, criamos uma aversão aos nossos traços de humanidade – nós precisamos de tempo de descanso. Um reflexo desse incômodo é a nossa pressão pela produtividade: quem nunca se sentiu culpado por estar fazendo nada? 

O tempo não é um recurso estático

Otimizar o tempo e tentar extrair o máximo possível dele não é um comportamento intrínseco apenas ao nosso trabalho e estudos. Estamos tão inseridos nessa lógica da rapidez que até os nossos momentos de lazer são permeados por essa necessidade. Na hora de conversar com os amigos, ouvir um podcast, assistir uma série, nos pegamos acelerando a velocidade de áudios e vídeos. Mas, afinal, o que vamos fazer com esse tempo que economizamos?

Outro exemplo disso é quando ouvimos relatos de viagens parecidos com “visitei 14 países em 9 dias”. Quanto disso você conseguiu aproveitar, sentir e criar memória? Esse discurso de sempre buscar uma melhor performance é perigoso, porque nos adoece. Ao lidar mal com o tempo, nos cobrando por melhorias, mais produtividade, mais aproveitamento, e isso tem muito a ver com a crescente de casos de compulsões, ansiedade e depressão.

Renée Maia reitera que a forma com que nos relacionamos com os acontecimentos do dia a dia tem sido tão veloz e superficial que estamos deixando de produzir memórias sobre eles. “Imagine que você pegou um bloco de argila e vai passá-lo para alguém. Mas você passa tão depressa que o bloco não te sujou e você nem deixou a marca dos seus dedos nele. É esse o processo que está acontecendo conosco: as coisas não marcam a gente, não construímos memória e, assim, percebemos o tempo mais rápido”, explica.

Nesta fragmentação de tempo, perdemos a noção de continuidade. São tantas informações que temos dificuldade de concatenar e tecer histórias, narrativas e nos apropriar do que nos acontece. Ser humano é precisar de tempo para elaborar nossas emoções e sensações. A urgência pelo controle do tempo nos coloca em um lugar de frustração, já que não conseguimos dar conta de tudo o que desejamos.

As expectativas para 2022

Com o aumento dos índices de vacinação e consequente queda dos casos graves da Covid-19, estamos depositando muita expectativa para o próximo ano. Isso, de acordo com a pesquisadora, evidencia mais ainda o quanto lidamos mal com o tempo. 

“Estar em casa nos colocou diante de vazios e de muitas tarefas a fazer. E, ao invés de desacelerar e entender nossos limites, queremos retomar a vida no mesmo ponto que antes: estamos tentando fingir que a pandemia não aconteceu e queremos tirar o atraso”, discorre.

O tempo não é um recurso que podemos pausar, cortar e retomar de onde quisermos. Nesse âmbito, Renée pontua que precisamos substituir a busca pela estabilidade por uma busca pela continuidade. Frequentemente depositamos nossa vida no futuro: “quando eu conseguir outro emprego, serei feliz” ou “quando eu mudar de cidade minha vida irá melhorar”. Esquecer o agora nos impede de construir sentidos e só gera ansiedade. “Precisamos estar presentes, criando diálogos com o tempo e tecendo caminhos. Tudo isso acontece pela memória, que é uma atualização criativa que parte do presente — e este está em constante transformação.”

O que significa “dar conta” e “aproveitar” o tempo?

Nossa robotização e anseio pelo automático, entre tantos perigos, também nos coloca em caixas muito semelhantes, quando, na verdade, somos todos muito diferentes. “Isso nos insere em um processo predatório. Um dia bom para mim pode não ser para você. Aliás, o nosso tempo também é diferente: eu posso fazer as coisas mais rápido e você mais devagar e não tem certo ou errado nisso. Essa discussão e reflexão não é para dizer que o devagar é bom e o rápido é ruim. Precisamos romper essas dualidades de certo e errado”, conta Renée. 

Antes de o ano virar e nos colocarmos várias metas, precisamos nos questionar. Para que serve fazer mais coisas em menos tempo? Estamos nos esgotando sem nem saber o motivo. 

Construir uma relação menos insustentável com o tempo é uma necessidade, para além do individual, para a sociedade — inclusive pelo bem do planeta. A doutora em Memória Social reitera que nossa percepção em relação ao tempo deveria ser qualitativa, inclusive, pelo quanto conseguimos sustentar enquanto coletivo: consumimos também nessa lógica veloz e nosso planeta não consegue acompanhar isso até em termos de matéria-prima.

Entrar em 2022 com essa reflexão em mente é essencial. Precisamos nos questionar do porquê estamos cansados e, mesmo assim, funcionando no mesmo ritmo.  Onde a gente quer chegar? Do contrário, corremos sem motivo e nos frustramos.

Por último, ter em mente que o problema é coletivo também importa. Essa pressão que sentimos não é algo único nosso. Renée diz que vivemos um momento tão individualista, ditado pela lógica de competição, que nos privamos de ter conversas sobre como estamos nos sentindo por medo de sermos julgados e deixados para trás.

“Como sociedade é importante saber que esse momento de excessos é coletivo”, explica. A partir do momento em que entendemos que é um problema geral e não só nosso, nos permitimos lidar com isso com mais autonomia. O que funciona pra mim pode não funcionar para o meu amigo. E é por isso, também, que não existe uma fórmula mágica da rotina saudável. 

É fundamental entender qual é o nosso jeito de usar uma rede social, qual é o nosso método de trabalho mais efetivo, qual é a nossa forma de aproveitar melhor o dia, qual é a rotina que nos faz bem, de que maneira nos sentimos felizes. Não somos robôs e não somos iguais. Que em 2022, tenhamos isso em mente e entendamos que um bom ano é um ano que respeitamos o tempo e o nosso tempo. 

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