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Nascida no Vale do Silício, a moda de abster-se de gratificações para sentí-las mais facilmente ganha cada vez mais adeptos ao redor do mundo, porém, ainda não tem comprovações científicas de que realmente funcione

Pense naquela máxima que você já deve ter ouvido quando passou por algum tipo de conflito amoroso: “às vezes, é preciso perder para dar valor”. Parece inimaginável que ela caiba também na tendência de wellness do momento que sugere, basicamente, o “jejum de um neurotransmissor”, certo? Mas ela cabe! Originado no Vale do Silício, o “Dopamine Fasting” (jejum de dopamina, em português) consiste em abster-se de coisas que trazem gratificação instantânea e prazer – vale desde o uso de redes sociais, passando por jogos, comidas, compras, música, sexo e, às vezes, até contato visual. 

Segundo Dr. Yago Fernandes, médico endocrinologista e especialista no segmento de emagrecimento e hipertrofia, “os adeptos acreditam que, na ausência dessas fontes de prazer, sua tolerância à dopamina diminua, promovendo prazer por meio de coisas mais simples e interrompendo comportamentos de dependência”. Eles defendem ainda que, na retomada das atividades interrompidas, a dose de prazer durante sua realização se torna menor.

Mas, antes de sair por aí cancelando tudo e todos, é preciso entender o que é, exatamente, a dopamina. 

Dopamina: um neurotransmissor fundamental

Dr.Yago explica que a “dopamina é um neurotransmissor da família das catecolaminas, assim como a noradrenalina e a adrenalina”. Na prática, os neurotransmissores dessa família atuam no sistema nervoso central (SNC), modulando funções relacionadas às emoções, sensação de recompensa, de prazer, atenção, aprendizado e sono. 

E alerta: “Neurotransmissores são moléculas sintetizadas a partir de aminoácidos e atuam na resposta inibitória e de excitação entre os neurônios após a sinapse. Muitas doenças neurológicas estão associadas a problemas na síntese de neurotransmissores, como depressão, Parkinson e epilepsia”.

Jejum de dopamina: funciona mesmo?

Não existem evidências científicas que comprovem que evitar chocolate ou tecnologia possa diminuir os níveis de dopamina no cérebro. “Segundo Joshua Berke, professor de Neurologia e Psicologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco, o jejum de dopamina apenas é uma moda originada no Vale do Silício. O argumento de que descansar o cérebro do uso excessivo das redes sociais, festas, abuso de álcool, açúcar é algo positivo, mas é pouco provável que isso tenha alguma relação com a dopamina. Dar uma pausa em atividades estressantes ou que demandem muita energia é algo relaxante. Mas daí recusar uma conversa com um amigo porque está fazendo esse tipo de jejum é exagero”, diz Dr. Yago. 

Na teoria, porém, a ideia do dopamine fasting parece boa e quem já tentou alega que faz efeito. É o que diz a economista Luciana Machado, que resolveu testar a tendência associada ao tratamento de ansiedade e depressão que começou em março deste ano. “Comecei aos poucos, apenas me desconectando das redes sociais aos finais de semana e senti diferença nas minhas respostas emocionais com o passar dos meses. Hoje, se não fosse o trabalho, poderia passar dias longe de gadgets tecnológicos. Claro, é algo que faço associado ao tratamento de uma doença com remédios, mas sinto que para mim funciona”, diz.

Em contrapartida,

Apesar de não haver comprovação científica, pode ser uma boa ideia aproveitar momentos de ócio, certo? Mas, antes de começar, siga as dicas do Dr. Yago:

Como deve ser a preparação? 

“Desligue todas as notificações do celular. Deixe o celular com cores frias (os olhos humanos são sensíveis a cores quentes). Crie momentos específicos no seu dia para responder redes sociais, ler notícias. O ponto principal é estar sempre buscando identificar aquelas coisas que nos distraem e neutralizá-las. Lembre-se, a questão não é se abster daquilo que dá prazer, mas substituir comportamentos obsessivos por práticas mais saudáveis”.

Como incluir no dia a dia? 

“O jejum intermitente por mais de 12 horas, faz com que o corpo mude sua fonte primária de energia de glicose para gordura, levando a cetose, um estado metabólico no qual podemos aproveitar melhor desempenho físico e mental. Com a difusão da ideia de que precisamos sempre comer de 3hs em 3hs, a maioria das pessoas talvez nunca aproveite desse estado. O mesmo ocorre com o vício nas redes sociais. Como estamos sempre conectados, recebendo likes e compartilhando informações, deixamos de aproveitar os benefícios de longos períodos de reflexão e produção ininterrupta. Há grupos que fazem a desintoxicação de dopamina todos os domingos. Alguns homens renunciam totalmente à ejaculação durante um mês em nome de melhorar o foco, saúde mental, aumentar a fertilidade e diminuir o risco de câncer de próstata, apesar de não existir evidências de que esse tipo de abstinência tenha algum benefício real”.

Como deve ser o retorno às atividades normais? 

“O jejum permite que você tente desconstruir uma tolerância. Isso permite que você reflita e analise a situação a partir de uma perspectiva mais ampla. Quando você entra novamente em contato com todos aqueles estímulos, acaba se envolvendo mais profundamente do que antes. Por exemplo, se antes você só sentia saciado com uma barra inteira de chocolate, na teoria, após o jejum com apenas uma porção já estaria satisfeito”. 

Vale lembrar também que casos de dependência precisam ser tratados com acompanhamento de especialistas. Portanto, procure sempre um médico de sua confiança antes de adotar qualquer mudança de comportamento severa.

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