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Estudos sugerem que o uso de substâncias psicodélicas podem auxiliar em tratamentos de transtornos psiquiátricos

Meme, figurinha do Whatsapp, capinha de celular… Há tempos, a popularização da estética do Rivotril, medicamento tarja preta de baixo custo indicado para o tratamento de ansiedade e insônia, entrega um dado preocupante: segundo a OMS, a população brasileira é a mais ansiosa do mundo. Não por acaso, também somos o país que mais consome o remédio em questão – além de muitos outros (Zoloft, Sertralina, Lorazepam, etc… Não devem ser nomes incomuns para você, né?). Mas se existe um problema para o qual há tratamento disponível com drogas variadas, temos a solução, certo? Então, mais ou menos.

A grande questão é que 40% das pessoas que utilizam essas drogas não sentem melhora alguma ou deixam de sentir com o tempo. Além disso, em geral, são associadas a efeitos colaterais como: náusea, dor de cabeça, diarreia, diminuição da libido e do apetite e têm alto índice de dependência. “É o sonho de todo médico que sejam descobertas e legalizadas novas substâncias eficientes para o tratamento dos transtornos psiquiátricos”, diz a psiquiatra e psicoterapeuta Ingrid Dahás.

A notícia boa é que há, sim, perspectiva de legalização de alternativas. 

Proibidos desde a década de 1980 (auge da guerra contra às drogas), os estudos com substâncias psicodélicas (como MDMA, LSD, Ayahuasca e cogumelos) foram retomados recentemente em vários lugares do mundo e têm mostrado respostas satisfatórias: de acordo com as pesquisas, há indícios de que essas substâncias podem retomar a neuroplasticidade cerebral e, dessa forma, auxiliar no tratamento de inúmeros transtornos. “Temos sugestões de indicação para transtornos depressivos, T.O.C (transtorno obsessivo compulsivo), transtornos de estresse pós-traumático, alcoolismo, entre outros. Alguns estudos também sugerem o uso para autismo de alto funcionamento”, diz Ingrid. “Vale lembrar que cada uma dessas drogas têm uma indicação e não estamos falando em uma possível cura, mas auxílio em tratamentos”. 

Apesar de ainda estarem em processo de pesquisa e não terem efeitos comprovados, essas substâncias já ganharam simpatizantes ao redor do mundo depois do boom da microdosagem, prática difundida pelos jovens do Vale do Silício que consiste em tomar micro quantidades de LSD ou cogumelo com intervalo de poucos dias. Como o LSD é proibido no Brasil, quem rouba a cena é o Psilocybe Cubensis, tipo de cogumelo que promete promover o aumento do foco, criatividade, disposição e melhora nos sintomas de ansiedade e depressão. 

EXPERIÊNCIAS PESSOAIS

Adepta da prática há um ano e meio, a arquiteta Carol* já fazia uso recreativo dos cogumelos antes de entrar no mundo da microdosagem. “Em 2016, tive um quadro de depressão e fiz tratamento com Zoloft e Frontal durante seis meses. Tive muitos efeitos colaterais, perdi a fome e me sentia cansada constantemente. Quando percebi a volta dos sintomas da depressão, no início da pandemia, resolvi buscar uma alternativa aos remédios convencionais. Foi assim que comecei a tomar microdoses de cogumelo”, diz. Carol relata ter sentido melhora imediata da fadiga e indisposição e garante que, em momento algum, se sentiu dependente da substância. 

As pesquisas sobre dependência, aliás, demonstram dados inusitados: é possível que os cogumelos causem um efeito de memória cerebral. Isso significa que, mesmo após interromper o tratamento, o paciente pode acessar os lugares do cérebro uma vez alterados pela substância sem precisar ingeri-la novamente. Foi o que aconteceu com a relações públicas Bianca*, que tomou microdosagens de Psilocybe Cubensis durante quatro meses depois de passar pelo trauma de complicações devidas a um aborto. “Eu senti uma revolução incrível dentro de mim. A microdose te faz ver as coisas por um lado muito positivo. Eu me percebi lidando com a vida com um olhar mais leve, por mais que eu estivesse vivendo tempos obscuros. É interessante que, no dia seguinte da ingestão, eu tinha uma disposição ainda maior, uma vontade de fazer as coisas acontecerem, uma cabeça mais aberta”, diz. 

Pesquisas concluídas hoje confirmam os relatos de Carol e Bianca. “Atualmente, sabemos que os psicodélicos ativam dois tipos de receptores cerebrais da serotonina – a gente tem vários. Ao ativar esses receptores, alguns efeitos acontecem, como o afrouxamento das fronteiras do eu, o maior interesse por questões subjetivas e vivências místicas. Quando elaborados com a terapia, esses efeitos podem ser terapêuticos. Além disso, temos várias suposições de como essas substâncias funcionariam contribuindo com tratamentos dos transtornos psiquiátricos, como efeito de neuroplasticidade (aumento das conexões cerebrais) e efeito anti-inflamatório (que entraria como tratamento para depressão), entre outros”, afirma a psiquiatra e psicoterapeuta Ingrid Dahás.

NO BRASIL 

Por não serem proibidas no Brasil, essas substâncias podem ser encontradas em sites que disponibilizam cogumelos já em cápsulas de diferentes miligramas e guias para a microdosagem, como o Natureza Sana, em que Bianca encomendava suas pílulas.

Mesmo assim, não são tão fáceis de ser encontrados. Isso porque, além de não terem eficácia comprovada e gerarem polêmica entre grupos mais conservadores, o seu cultivo demanda bastante dedicação. “De forma simplificada, o cultivo inclui poucos passos que são simples de entender, porém um pouco complexos de serem seguidos. Nós capturamos os esporos de um cogumelo vivo e injetamos em uma mistura de substratos naturais. Depois de 10 dias, se forma um bolo compacto desse substrato com o desenvolvimento do micélio. O micélio é como uma teia que dá liga nesse bolo. Depois que o micélio toma conta de todo o substrato, desmanchamos esse bolo em pedaços em um compartimento com vermiculita e esperamos os cogumelos surgirem”, conta Marcelo*, que cultiva e comercializa cogumelos para um círculo de amigos conhecidos. “A dificuldade está na condução dos processos, que devem ser muito controlados. Para o Psilocybe Cubensis nascer, só há duas maneiras: de forma natural, nas fezes de vacas, ou em um ambiente de controle rígido de quantidade de oxigênio, umidade, pureza do ar e temperatura. Para o consumo humano, os cultivados indoor são os mais indicados, pois estão limpos”. 

Marcelo faz parte de um grupo que reúne mais de 70 estudiosos sobre o assunto no Brasil. Entre eles estão psicólogos, psiquiatras, médicos e neurocientistas. “Mas, isso não significa que sabemos tudo sobre essas substâncias”, diz. “É necessário atentarmos para a seriedade do assunto. Os psicodélicos são terapias alternativas. Embora os estudos estejam avançando numa velocidade incrível, há uma série de processos pelos quais eles precisam passar pra que sejam vistos como medicina tradicional. Já sabemos, por exemplo, que os cogumelos mágicos são contraindicados para quem tem tendência à esquizofrenia. Por isso, é preciso ter cuidado e respeito com o próprio corpo e a natureza”.

Além dos estudos com drogas naturais, também vale ressaltar por aqui o trabalho do neurocientista Eduardo Schenberg, diretor do Instituto Phaneros, que recentemente publicou um estudo sobre uso psiquiátrico de MDMA (metilenodioximetanfetamina) em parceria com uma entidade americana que também pesquisa essas substâncias, e observou resultados animadores entre pacientes que sofrem de estresse pós traumático. 

As pesquisas mais avançadas por aqui, entretanto, são com Ayahuasca, muito por causa do uso indígena ancestral para cura e em rituais – a comunidade indígena, aliás, repreende fortemente o uso dessas substâncias de maneira recreativa e em ambientes que podem disparar gatilhos negativos, como festas. “Os Pagés Huni Kuin, da Amazônia, me ensinaram muito sobre elas. De acordo com eles, é preciso seguir protocolos medicinais com cuidado e não abusar”, diz Marcelo. “É importante saber, além disso, que todos esses estudos propõem um uso supervisionado e associado com terapia”, completa Ingrid. “As substâncias psicodélicas não podem ser usadas por qualquer pessoa, uma vez que podem piorar sintomas de transtornos de personalidade e desencadear surtos psicóticos. Além disso, o MDMA, por exemplo, tem potencial de dependência”.

Sendo assim, fica a reflexão do médico e físico suíço Paracelso, que já foi até cantada por Evandro Fióti em sua música Gente Bonita: “A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. 

QUER SABER MAIS? 

Na última semana de junho, Gregório Duvivier fez um paralelo entre religião e terapia com substâncias psicodélicas neste Greg News. Vale assistir! 

Se você quer se aprofundar ainda mais, a Fósfoto Editora acaba de publicar o livro Psiconautas, que conta a história das principais drogas psicodélicas, desde sua descoberta no século 20 até o uso medicinal revolucionário que vem sendo feito de cada uma delas atualmente.  

Olhando por um viés econômico, esta reportagem da Época Negócios, publicada no final do ano passado, previu que o mercado das drogas psicodélicas deve movimentar 7 bilhões de dólares até 2027. 

* Por motivos de segurança e a pedido de alguns personagens que deram seus depoimentos nesta matéria, seus nomes foram alterados.

** Em hipótese alguma se automedique. 

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