compre holistix
k

A tristeza de domingo, que geralmente vem acompanhada de um sentimento de ansiedade e pavor, não é novidade. Mas, agora,ela ganhou nome próprio: “Sunday Scaries” — podendo ser traduzida como ‘medo do #Segundou’. Vem saber mais

Quem nunca sentiu um arrepio na espinha ao ouvir a vinheta do Fantástico em um domingo à noite que atire a primeira pedra. A ansiedade que vai chegando de mansinho no final do dia de domingo acabou de ganhar nome próprio entre os estudiosos de tendência de comportamento: “Síndrome de Domingo”. 

Apesar de essa nomenclatura não estar descrita ainda no DSM-5, o Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, como conta a psicóloga Andressa Américo, a sensação em si pode vir acompanhada de problemas já bastante conhecidos. “Depressão e até a Síndrome de Burnout podem estar envolvidas. Mas o termo ainda não é utilizado pela psicologia”, esclarece. 

Ainda que tenha se tornado uma nomenclatura “Instagramável”, aparentemente nova e amplamente difundida nas mídias principalmente no período de pandemia, essa sensação não é exatamente novidade. Mesmo antes do isolamento social provocado pela Covid-19, a OMS (Organização Mundial da Saúde) já denunciava quase 19 milhões de brasileiros com transtornos de ansiedade e depressão.

Além disso, uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva e o Grupo LMT – Loyalty & Trade Management, relatou que 56% dos trabalhadores formais estão insatisfeitos com seus empregos e 64% gostariam de mudar de função — números que denunciam, também, o porquê de o Brasil ser considerado o país mais ansioso do mundo e o 5º mais depressivo, também de acordo com a OMS.

A psicóloga Andressa conta que a pandemia desempenhou um papel de escancarar ainda mais esses problemas: “O isolamento social evidenciou o que antes as pessoas conseguiam disfarçar. Ficar em casa fez com que cada indivíduo avaliasse a sua motivação pessoal e muitos perceberam que não estavam satisfeitos com o que estavam fazendo. É assim que os sintomas começam a surgir, com essa insatisfação: ‘Eu não gosto do que faço (ou muitas vezes o ambiente não é saudável) e quando percebo que a semana vai iniciar novamente, fico angustiada, triste, preocupada e ansiosa’.”, explica.

O que é a Síndrome de Domingo

Identificar o fim do período de descanso tão aguardado chega pode ser angustiante e gerar muita ansiedade pra uma parcela da população. Aos domingos, cabem as reflexões de que no próximo dia tudo recomeça: estudos, trabalho e a rotina recheada de obrigações e listas infinitas de afazeres.

A psicóloga conta que, em consultório, vê pessoas narrarem esse sentimento de “luto” pelo final de semana com profunda angústia: “Tenho pacientes que não podiam assistir determinados programas de domingo à noite que ficavam deprimidos e se isolavam. […] E apesar de esse sentimento também atingir os mais novos, tem sido mais comum entre pessoas com mais de 30 anos”. 

A sensação de ter uma lista interminável de afazeres parece ter vindo de brinde na vida dos Millennials e da geração Z. Não é incomum que as rodinhas de conversa entre amigos tenham assuntos como: “Não sei quando foi a última vez que peguei em um livro” ou “Eu só trabalho e durmo e, mesmo assim, estou constantemente cansado(a)” — sem contar no comentário “Eu conheço alguém que teve Burnout”, que já se tornou um clássico.

Encontrar-se triste com os finais de semana coloca em questão pontos muito mais profundos do que imaginamos, como por exemplo toda a estrutura do capitalismo e dos formatos de trabalho. Entretanto, muitas vezes essa tristeza pode não significar necessariamente desgosto pelo emprego ou estudos, mas sim uma estafa mental diante das obrigações que se aproximam. 

Como evitar o Sunday Scaries

A psicóloga e coordenadora de RH Ana Marques alerta que, diante da tristeza e ansiedade das últimas horas do domingo, é importante se fazer perguntas e investigar o motivo por trás da angústia: “Talvez não se tenha todas as respostas, mas o simples fato de formular perguntas faz com que algo interessante aconteça:

  • Será que esse tipo de sentimento aparece somente aos domingos para mim? 
  • O que será que acontece que faz com que eu me sinta triste ou ansiosa aos domingos?
  • Como eu lido com esse sentimento? 
  • Como lido com o meu desejo diante do desconforto? 
  • Como posso comunicar esse sentimento para a minha liderança/para o RH da minha empresa? Onde eu trabalho existe essa abertura?
  • Preciso buscar ajuda profissional? 
  • Como identifico meus limites? Eles estão colocados?”

Além de se questionar, é importante realizar atividades complementares que apresentem alívio a esses sintomas. Tirar momentos de pausa durante o dia, deixar a câmera desligada em algumas reuniões remotas e se dedicar a atividades de ‘higiene mental’, como colorir livros, fazer pinturas, escrever em um Morning Pages, por exemplo. A arte e outras expressões, como exercícios físicos, conseguem canalizar e externalizar tensões e sentimentos. E tudo isso pode ajudar. 

Aqui, fica ainda o lembrete para uma ir além na auto-análise: você está vivendo durante a semana ou está esperando o fim de semana chegar para viver? Muitas vezes, com a correria do dia a dia e atividades cada vez mais dinâmicas, nos esquecemos de que a vida acontece no agora — não precisamos aguardar pela chegada do sábado e do domingo para isso.

Quando devo buscar ajuda?

Buscar ajuda profissional é fundamental quando esse sentimento de tristeza que acompanha a Síndrome de Domingo se intensifica, chegando até a ser paralisante. Se houver condições, a psicóloga Ana recomenda: “Estar em análise ou sob acompanhamento psicológico ajuda na prevenção e também no enfrentamento dessas sensações. Quando há repetição e dificuldades nas realizações de atividades cotidianas, é importante contar com auxílio de especialistas”.

Tensão em excesso, estresse, transtornos de ansiedade e depressão não podem ser normalizados e não devem fazer parte da nossa rotina. Saúde mental é coisa séria e deve receber os cuidados necessários. É claro que você pode dar uma forcinha extra na sua rotina com mini-hábitos saudáveis, que são medidas complementares, mas nada substitui um tratamento adequado com um profissional de saúde.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.