compre holistix
k

A crescente tendência ganha cada vez mais adeptos e pressiona indústria de bebidas a desenvolver novos produtos sem álcool

Se você acompanhou o Oscar deste ano, com certeza ouviu falar no filme Druk, dinamarquês que ganhou o prêmio de Melhor Estrangeiro. O longa conta a história de quatro professores que resolvem manter um nível constante de álcool em suas correntes sanguíneas para verem se suas vidas melhoravam. De início, os resultados são animadores, porém, claro, depois de algum tempo, as coisas começam a sair do controle. Irônico, divertido e um tanto dramático, foi aclamado pela crítica e é apenas um dos exemplos que afirmam uma tendência crescente: o questionamento da quantidade de álcool que ingerimos.

Desde o começo da pandemia de coronavírus, o consumo de álcool cresceu no mundo todo – de acordo com uma pesquisa feita pela OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), 42% dos entrevistados brasileiros relataram alto consumo de bebidas alcoólicas em 2020. Não apenas preocupante para a saúde pública, o fato também alavancou problemas sociais, como violência doméstica por exemplo. Mas, se em março do ano passado a tendência era essa, parece que agora um pequeno movimento contrário está surgindo. 

Popularizada em 2018 nos Estados Unidos por causa do livro de Ruby Warrington que leva este nome, a expressão sober curious (curiosidade sóbria, em tradução livre) tem ganhado cada vez mais adeptos que se propõem passar períodos sem ingerir bebidas alcoólicas e até parar totalmente de beber. “Acho que o movimento tem a ver com o fato de falarmos mais sobre a questão durante a pandemia porque o aumento do consumo de álcool se tornou uma preocupação. Mas, também se dá por uma busca mundial de melhor qualidade de vida. A gente quer saber de onde vêm as roupas que compramos, os alimentos que comemos e também sobre o impacto das bebidas no nosso corpo”, afirma Néli Pereira, jornalista, pesquisadora de brasilidades, mixologista e ativista do consumo moderado do álcool. 

A busca pelo autoconhecimento (tanto físico, como psicológico), aliás, foi o ponto de partida para que o empreendedor Antoine Kliot parasse de beber álcool há 5 anos. “Na época eu estava praticando muito yoga e focado no meu bem-estar. A ideia era tentar ficar um mês sem beber. Esse mês virou dois, três e eu percebi que estava muito bem sem álcool e quis parar de vez”, diz. Com a decisão, claro, vieram algumas mudanças na vida social. “Comecei a dormir mais cedo do ponto de vista social e a aproveitar o dia. Também acabei mudando um pouco a minha turma de amigos e aprendi a ficar mais sozinho”. Mas, os maiores impactos foram na qualidade de vida. “Principalmente o humor. O álcool me colocava em muita oscilação de momentos depressivos e eufóricos. Hoje não sinto mais isso”, diz.

Além da curiosidade e da busca por melhor qualidade de vida, Antonie também levou em consideração o fato de achar que era muito dependente do álcool para se divertir. Esse sentimento de que sem um drink, um vinho ou uma cerveja não há diversão atinge muitas pessoas e, por isso, a reeducação do consumo do álcool não é algo tão simples de ser feito, especialmente entre os mais jovens. Mas, como toda mudança de hábito, é possível de acontecer. “Não acho que é preciso parar de beber para sempre, mas, criar uma nova relação com o álcool e passar a explorar o universo das bebidas em geral. De manhã tomamos um café ou chá, ingerimos bebidas funcionais para malhar, estimulantes para ficarmos mais alertas e, às vezes, um drink. Dentro das mudanças pequenas de hábitos diários, é possível passar um determinado tempo sem beber. Fazendo isso aos poucos, dá para perceber o impacto dessa substância no nosso corpo, no sono, na pele, no humor, na disposição. E, assim, criar uma relação mais saudável com o álcool. A curiosidade sóbria é um processo de autoconhecimento”, diz Néli. 

Olho nelas!

Graças a demanda que vem junto da curiosidade sóbria, começam a despontar no mercado novas marcas e ações que incentivam o consumo moderado do álcool. A Ambev disponibiliza em seu site um raio x de consumo e uma calculadora de doses, criada por neurocientistas. O CISA (Centro de Informação sobre Saúde e Álcool), trabalha alertando a população sobre a importância do consumo moderado. Uma das porta-vozes do movimento, a própria Néli Pereira criou, junto da Tônica da Antártica, um concurso de drinks não alcoólicos. Além disso, mantém o foco da sua coquetelaria nos ingredientes brasileiros, e não no álcool em si. “Eu pesquiso sobre ingredientes e sabores – ervas, cascas, plantas, raízes. Se eu escolher usar uma lavanda, por exemplo, ela pode ser usada com gin, mas também com leite, como um chá, em infusão, etc. Com isso eu quero que as pessoas se aproximem da coquetelaria como algo que tem sabor, que é gostoso e pode fazer parte da vida delas com ou sem álcool”, diz. 

Fora do circuito de grandes nomes, outros menores têm abraçado a causa. Caso da Kiro, que nasceu em 2017 com o intuito de ser uma marca de bebidas não alcoólicas para adultos. “Ainda hoje a sugestão de bebidas sem álcool para adultos gera estranhamento. O desafio é imenso, pois a cultura do álcool é muito forte em nossa sociedade e, infelizmente, por mais que os prejuízos do abuso do álcool sejam amplamente conhecidos, a associação simbólica com a bebida no geral carrega saldo positivo. Quem considera a contradição, considera a realidade. Não queremos demonizar o consumo do álcool, mas questionar a relação míope da sociedade com o álcool é fundamental. Escolher a sobriedade por curiosidade significa questionar os impulsos e hábitos que nos movem a seguir num piloto automático que muitas vezes nos tira o protagonismo de nós mesmos”, diz Leeward Wang, sócio fundador da marca.

Revendo hábitos

Néli Pereira alerta para a necessidade de lembrarmos que, ao falarmos sobre o sober curious, estamos falando sobre uma parcela muito pequena da população e que a realidade das periferias, com o incentivo ao consumo desenfreado do álcool, é outra. Ainda assim, é um movimento para se ficar de olho.  

“De toda forma, acho que não existe falar de álcool sem falar de responsabilidade porque pode ser uma bebida nociva para algumas pessoas. Não precisamos impor nada, mas dá para falar para as pessoas beberem menos e melhor. Eu tento sempre abrir essas possibilidades”, diz.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.