compre holistix
k

O psicanalista Lucas Liedke explica qual é a diferença entre os termos e responde à questão universal: é impossível ser feliz sozinho?

solidão-ou-solitude

A imagem inicial mostra a personagem vivida por Renée Zellweger na sala de seu apartamento vestindo pijama enquanto chora, assiste a filmes de amor e bebe taças de vinho tinto. O auge acontece quando, de dentro do seu sofrimento, ela interpreta a música All by myself, de Céline Dion, que em tradução livre significa “completamente sozinha”. A famosa e hilária cena do filme Bridget Jones (2001), que ilustra um tipo de solidão que nos acomete após vivermos um desamor, atualmente poderia ser inserida em um contexto de pandemia e isolamento social – altere a trilha sonora para Hope ur ok, de Olivia Rodrigo, e, voilà: quem não teve pelo menos um momento como esse desde março do ano passado? 

Apesar de ser um assunto bastante difundido hoje, a solidão é um problema de saúde pública desde bem antes da disseminação do Coronavírus. Realizada com 55 mil voluntários, a pesquisa BBC Loneliness Experiment, de 2018, mostrou que uma em cada três pessoas sofre de solidão ao redor do mundo. No mesmo ano, o Reino Unido criou o Ministério da Solidão e destinou 1,8 milhão de libras para financiar iniciativas de socialização e jogar luz sobre suas taxas altíssimas: à época mais de 9 milhões de britânicos diziam se sentir sozinhos.

Mas é possível chamar a solidão de doença? De acordo com o psicanalista Lucas Liedke, não é bem assim. “A solidão em si, não é uma doença. Mas, ela é um estado subjetivo que gera tipos de padecimentos psíquicos ou fisiológicos e pode ser tanto uma causa como um sintoma”, diz. O caso mais grave, aliás, é a solidão crônica, que, segundo estudos epidemiológicos desenvolvidos desde a década de 1980, pode elevar riscos de depressão, demência, doenças cardiovasculares como AVC, incidência de infecções e até à morte.

Um dos grandes problemas não é o estar sozinho em si, mas como as pessoas lidam com o estar sozinho. “Ainda que a solidão carregue sempre um sentimento ruim (muito por causa de uma cultura de hiperconexão instaurada nos dias de hoje), é importante notar que não é o mesmo que estar sozinho ou em um estado de solitude. A pessoa pode passar por um período sozinha sem sofrer. Dá para lidar com a falta do outro sem estar em uma situação de abandono, exclusão ou até de saudade”, diz Lucas. 

Mas como aprender a lidar com esse sentimento tão complexo? Em um IGTV gravado para o seu perfil no Instagram (@lucasliedke), o psicanalista afirma que, como em qualquer outra questão emocional, é preciso reconhecer que algo não vai bem. “A visão de que a solidão é um mal a ser combatido está baseada em dois fatores socioculturais distintos e opostos: de um lado, existe o imperativo da socialização que diz que eu não posso ficar sozinho porque, assim, meu capital social é reduzido. De outro lado, existe um discurso da autossuficiência. Essa dualidade de conceitos fica brigando dentro da gente como um conflito do super-eu e quem sai perdendo é a falta do outro […]. Entrar numa batalha contra a solidão é um tanto perigoso porque pode virar uma tentativa de fazer de conta que a falta do outro não nos afeta, não gera incômodo”, ele diz em uma passagem.

Dentre todos esses questionamentos, uma prática de autocuidado se destaca como o melhor caminho: fazer terapia (gostoso demais!). “Ao falarmos sobre nossa solidão, não ficamos só com a ausência do outro, mas também com a presença de si. Ela nos ajuda a pensar mais no lado bom da solitude e não no lado mal da solidão”. Nessa caminhada de autoconhecimento, Lucas responde à questão poética universal: é impossível ser feliz sozinho? “Solidão ou companhia não são garantias de felicidade. Tem que ter um balanço dinâmico entre os dois. E aí a gente pode dizer só no fim se foi ou não feliz”. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.